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Viagem no tempo a ouvir "Losing sleep" do Edwyn Collins

Quinta-feira, 30.09.10

 

Ouvir Edwyn Collins, que nunca me lembro de ter ouvido, a não ser nalguma estação de rádio, transportou-me de imediato para esses longínquos anos 70. Fenómeno estranho, porque este Losing sleep é recente, e a sua carreira só se iniciou com a new wave, mas a música, sempre que me inspira, leva-me muitas vezes em viagens no tempo, porque está lá, nesse espaço-tempo, o melhor de mim, essa claridade, essa fonte.

 

Nesses longínquos anos 70, os anos impressionáveis, também adiei o sono a ouvir rádio. E os melhores serões eram os de inverno, lareira acesa, a casa meio adormecida, com a música por companhia. Ou as tardes de verão, livro na mão, e a música por companhia.

 

Porquê Edwyn Collins? Aconteceu este outono. Já foi os The Divine Comedy neste verão. Aguardo o que será no inverno. Talvez o Brian Wilson neste Gershwin e Cole Porter revisitados. Sei que não é muito simpático para quem partilha o meu espaço-tempo, ouvir o mesmo CD repetir-se... Por isso a frase mais ouvida: Não é muito repetitivo?

 

Entretanto, insisto nesse refúgio no espaço-tempo dos longínquos anos 70, sabe-me bem. Alienação? Não. Disse-o lá atrás, é onde está a minha fonte, a minha inspiração, as minhas personagens, os meus heróis, as minhas referências. Como poderia sequer encarar estes áridos tempos actuais sem me ir abastecer filosoficamente e animicamente a algum lugar-refúgio? São essas viagens no tempo que me salvam os dias. Com a música por companhia.



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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 00:48

A imaturidade de um país expressa nas "Grandes Opções do Plano"

Quarta-feira, 22.09.10

 

Deu-me para pensar nisto: se o país fosse uma pessoa, qual seria a sua idade? E como se apuraria a sua idade?

Teríamos de considerar o seu desenvolvimento cognitivo, o seu desenvolvimento emocional, como responde a estímulos, como perspectiva a realidade, como age em situações adversas, a sua tolerância à frustração por exemplo, a sua persistência num caminho com obstáculos, a sua resistência física e moral, a sua resistência à necessidade de aprovação social, a capacidade de auto-avaliação, a capacidade para pensar no grupo e não apenas em si próprio, a capacidade para negociar, o respeito pelas regras do jogo, a capacidade de tomar as decisões mais adequadas a todos os envolvidos, a capacidade para manter a calma em situações de risco, etc. etc.

 

Pelo que tenho observado, e descontando algumas excepções, pensando na maioria dos seus habitantes, diria que estaria aí pelos 13, 14 anos. Há aqui claramente uma questão de imaturidade, pois esperaríamos do país que fosse um adulto por esta altura. Mas não, mais de oito séculos depois ainda somos uns pré-adolescentes (glup).

Não admira, pois, que os actuais gestores políticos tenham conseguido manter-se na crista da onda até agora e que os representantes máximos tenham conseguido ficar muito quietinhos a fazer de morto e manter a sua popularidade (glup, glup!)

Já o país não vai ficar em muito bom estado, mas não é próprio da adolescência cair e estropiar-se a toda a hora?, não pensar na sua integridade física?, querer experimentar tudo, ver tudo, ter tudo, o último brinquedo tecnológico?, a viver num eterno presente sem contar com o dia seguinte?

É claro que quando esmurra o nariz ou as coisas não lhe correm bem, sempre pode recorrer à mamã ou ao papá.

 

Não admira, pois, que estas sejam as Grandes Opções do Plano (glup, glup, glup!)

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:13

Confundir vida com visibilidade

Sexta-feira, 17.09.10

 

Sou visto, logo existo. Esta é a lógica actual. Como se uma vida discreta não pudesse ser uma vida plenamente vivida, significativa, gratificante. Como se os momentos de qualidade só pudessem ser assim definidos se visualizados na hora (fotografia ou vídeo por sms, twitter, facebook). Como se o olhar dos outros fosse a confirmação da sua existência, do seu valor.

Reparem como hoje em dia ninguém quer aparecer depois do verão sem estar minimamente bronzeado, como se isso fosse a prova de umas boas férias. Ou com histórias de viagens até aos pormenores. A tal necessidade de aprovação social. Ou o selo de garantia exterior: a minha vida tem valor.

 

Um dia não muito longínquo as pessoas irão valorizar o que hoje temem e até desdenham, aquilo de que fogem como o diabo da cruz: o silêncio, a privacidade, a tranquilidade, o anonimato. Esse espaço-tempo só seu, aquele momento-intervalo-pausa, na companhia das pessoas significativas da sua vida. Essa é a dimensão da verdadeira qualidade de vida, a vida afinal, não a visibilidade. Virão de férias sem se preocupar em torná-las visíveis. Os únicos vestígios que trarão consigo serão um ar mais tranquilo ou um sorriso nos lábios. Não sentirão essa necessidade impulsiva de se expor num qualquer palco: amigos, colegas, etc.

 

Esta exposição de informações pessoais no Facebook parece que coloca as pessoas em situações embaraçosas ou mesmo de risco. Já há quem avise para evitar colocar os seguintes dados: data e local de nascimento, planos de férias, morada, confissões, pistas de password, comportamentos de risco.

O Facebook ainda não é utilizado nas suas melhores potencialidades, as que permitem a comunicação: troca de ideias e mobilização para a acção. Serve a visibilidade, a exposição, a publicidade.

É certo que há aqui um serviço psico-social digamos assim, é um antídoto poderoso contra o isolamento e a solidão. A dimensão virtual de uma existência, à séc. XXI.

Mas a tendência que irá prevalecer será, a meu ver, a da comunicação e da mobilização de grupos com objectivos definidos de intervenção.

 


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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 14:25

O impacto do documentário: "Lisboa Domiciliária"

Quinta-feira, 16.09.10

 

O Sapo destacou um documentário sobre a velhice em Lisboa, Lisboa Domiciliária, que estreia hoje. Uma velhice solitária e confinada a uma casa, muitas vezes degradada. Em que o apoio domiciliário é talvez a única ligação com o mundo lá fora.

 

Nas minhas deambulações pelas ruas de Lisboa, em 99 e 2000, vi muitos rostos em janelas de prédios antigos. A cidade não é amiga da velhice, isso já me parecia evidente. A velhice quer convívio, companhia. Talvez como em nenhuma outra fase da vida, a não ser a infância, a velhice perde qualidade na solidão de uma casa vazia, onde as fotografias espalhadas pelos móveis não são suficientes para afastar a sensação de abandono.

 

Por isso, embora tantos de nós concordemos que é preferível manter uma pessoa no seu espaço, o lugar das suas memórias e rotinas, com apoio domiciliário, verificamos que isto é também um risco. E independentemente do risco, não é a situação ideal.

 

Visualizei aqui o que seria ideal para uma velhice com qualidade, dignidade e satisfação emocional e afectiva. Espaços adequados, e o ideal é que funcionassem essencialmente como aqueles clubes privados que vemos nos filmes ingleses e americanos - cá chamam-se centros de dia. Com pessoal treinado e com o perfil certo, para acolher e animar, desafiar para actividades estimulantes, e onde se organizassem festas, peças de teatro, viagens... Bem, já me entusiasmei...

 



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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:42

O tempo da voracidade boçal

Quinta-feira, 09.09.10

 

Este é o tempo da voracidade boçal

Deixemo-lo passar por nós

como vento que tudo seca

 

A voracidade boçal baseia-se

na inveja e no ódio

apropria-se de forma ilegítima

de tudo o que não lhe pertence

pode destruir o corpo, o habitat, o espaço-tempo

o que lhe acalma temporariamente a inveja

mas nunca poderá apropriar-se da alma

o que lhe atiçará ainda mais o ódio

 

Uma alma livre

não pode ser aprisionada

pois nem sequer é acessível à voracidade boçal

são duas dimensões distintas

em nada coincidem

em nada correspondem

 

Deixemo-lo passar, ao tempo da voracidade boçal

como vento que tudo seca

deixemo-lo passar por nós, desfazer-se no horizonte cinzento

terminar nalguma ilha longínqua

pois nem para os seus próximos

nem para os que se lhes seguem

será frutuosa

A voracidade boçal apenas destrói

nada fica da sua laboriosa apropriação ilegítima

 

Outro tempo virá

mais tranquilo, de uma nova claridade

mas antes

teremos de aprender a olhar para a nossa própria alma

sem contemplações

só então poderemos construir

a partir das ruínas


 


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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:34








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